Posts de Junho, 2008

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Nomes nada fictícios

Junho 18, 2008

Acho que estava demorando pra chegar o dia dos nomes estranhos. Só não imaginei que podia ser tão confuso na hora de conversar com os donos deles. Ou donas. Esse era o problema.

Com que tratamento você conversa com uma pessoa chamada Celir? Quando comentei com meus amigos sobre Ilca, me disseram que é mulher. Não sei, nessa ligação a linha caiu antes de eu poder confirmar. Mas Celir era homem. E ainda Juraci? Era mulher. Mas bem podia ser homem. Teve caso pior, Misterdam, é homem ou mulher? Atendi como homem e evitei os tratamentos de gênero, pra no final ficar na dúvida, porque a voz também não ajudava. Até agora estou achando que era mulher.

Tem também os nomes que você sabe o sexo, mas não o motivo do registro esquisito. Tipo Virgem Santíssima. Será que a mãe tava pagando promessa? Seria pior se fosse Virgem Santíssima Jesus dos Santos, mas eu não sei o sobrenome porque não fui eu que atendi. Meu colega do lado fez questão de contar.

Sei que eu deveria preservar a privacidade dos clientes e blá blá blá. Mas não dava pra contar essas coisas com nomes fictícios, já que essas histórias não têm nada de ficção.

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Dia 1: Era pra tu, tu, tu…

Junho 17, 2008

Depois do treinamento, fiquei um tempo só escutando o trabalho dos outros operadores enquanto eu não tinha um login. Nessa, percebi a mania que todos adquirem de ligar e desligar o microfone no meio da conversa com o cliente.

“Senhora Maria? A senhora pode confirmar seu nome completo por favor? (desliga) Essa véia não vai querer pagar, quer ver só? (liga) Obrigado, agora o seu CPF por favor? (desliga) Ô Rose, quem ganhou ontem? (liga) Obrigado pela confirmação…”

O difícil é você querer fazer isso quando você não tem prática. Depois de desligar o microfone no fim de uma conversa, esqueci de religar quando finalizei o relatório. Batata: deixei mais de três ligações registradas como telefone mudo sendo que quem estava mudo era meu microfone.

Se você comprou alguma coisa, não pagou, seu telefone tocou e ninguém respondeu, há uma possibilidade remota de ter sido eu. Desculpe, senhor.

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Leitura dinâmica

Junho 17, 2008

Primeiro dia, depois da entrega de documentos fui para o treinamento. Ele consiste numa apresentação de slides que explica como usar o sistema (um banco de dados) e o discador . Eu, numa gripe fenomenalmente violenta, não acreditei que eu teria saco para todo aquele discurso. Muito menos para as perguntas.

O discador está todo em inglês. O que fez a treinadora ter que nos ensinar o que significa cada coisa. Ready (leia-se “rid”, segundo ela), era o que significava que você já pode receber novas ligações.

Eu não quis comentar que eu não queria ler (read) nada, só atender o telefone.

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RH 2: Força na peruca!

Junho 16, 2008

Tive que ir duas vezes entregar meus documentos. Problemas de RH à parte, estava eu, de novo, na fila de entrega de papéis. Ouvindo as histórias alheias, como sempre, captei a de uma moça que dizia ter procurado emprego só de pirraça.

“Meu marido é dono de uma loja grande de brinquedos. Não me falta nada, sabe, mas também não sobra. Só que ele vive reclamando que eu gasto muito com minhas coisas, que gasto 150 reais por mês com meu cabelo.”

Cabelo tingido de loiro, comprido e liso.

“Disse pra ele que se ele não quer gastar, eu vou trabalhar e ganhar o meu. Mas meu dinheiro é só pra mim, ele que sustente o menino.”

Isso é que é força na peruca!

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RH: Quebra-cabeças

Junho 16, 2008

Achei que essa história de juntar o nome do pai com o nome da mãe pra batizar um rebento era brincadeira de quem tem nome comum e pronúnciável, tipo Carolina, Joana, Marcelo… Mas conheci um moço chamado Ronílton.

“Não gosto do meu nome, foi idéia da minha mãe… Pegou o Ro, do nome dela, mais o nome do meu pai, Nílton. Eu gosto que me chame de Roni, acho mais bonito. Não podia ter me registrado assim?”

Poder, podia. Mas ela não sabia se você, quando crescesse, não ia querer um nome mais comprido, tipo Ronílton…

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Exame médico 3: Intimidade

Junho 16, 2008

O grupo de mulheres conversava na sala de espera a respeito do exame que fariam em seguida.

“Será que ele vai olhar piercing, tatuagem, essas coisas? É por que eu tenho tatuagem, sabia?” (levanta a saia até o joelho e mostra a panturrilha)

Diante do burburinho da mulherada e das exclamações de “ai que lindinha”, tirei os olhos do meu sudoku e também olhei a tatuagem da moça. Era a Sininho, a fada. Lindinha mesmo, muito bem desenhada…só que…morena.

“Desenhei ela morena, porque ela é loirinha, né? Achei meio sem graça, quis diferente e pintei morena…Eu tenho piercing, sabia? Mas é no umbigo, tirei hoje pra fazer o exame

“Eu também queria fazer um piercing, aqui no nariz…”
“Ah, devia fazer, ia dar uma iluminada no rosto, você tem o rosto bonito…”
“Pensei em fazer no dente também”
“É, no dente fica lindo! Mas dizem que tem que furar”
“Não, cola que nem aparelho. E dá um brilho, precisa de ver.”

A moda anda mudando, não é minha gente…

Elas gostam de dividir a própria vida assim, de uma vez. Deve ser pra ficarem íntimas o mais rápido possível.
“Eu já fui casada, sabia? Sério, meu nome aqui no contrato é o de casada…”

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Sala de espera: Pseudônimos

Junho 16, 2008

A gente ouve histórias de que os operadores têm que criar nomes falsos para atender as ligações, pra manter a discrição e a privacidade da vida pessoal dos atendentes. Tinha um grupo que já estava pensando qual seria o nome que ia usar por trás dos fones.

“Já pensou que legal, eu vou atender Banco do Brasil, Brad, bom dia?”

“Então eu já sei o meu também! Vou atender Banco do Brasil, Angelina Jolie, bom dia?”

Discretos eles, não?

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Exame médico 2: Audio-quê?

Junho 16, 2008

Depois da audiometria, de novo enfrentamos a sala de espera para o exame do estetoscópio. Eu fazia um sudoku, já que não tinha assunto pra me integrar com a galera.

Do meu lado sentou-se uma senhora, dos seus mais de 40 anos. Passou uma amiga dela na porta da sala e perguntou “E aí, já foi?”

“Não, são dois exames. Acabei de passar na….auditoria. Agora falta o exame médico.”

Eu sei, deveria ter ficado quieta, continuado meu sudoku. Olha, vai um 2 aqui…

“Não seria audiometria?”

“Ah, eh… esses exame tem tudo nome difícil…”

Preferi não começar um assunto. E continuei meu sudoku.

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Exame médico 1: Bip. Bip. Bip. Repita.

Junho 16, 2008

O exame médico. Logo em seguida da entrevista e de ter tirado todo o dinheiro da minha carteira em xerox de documentos (três cópias de RG, CPF, CPTS, ESPN etc.), haveriam dois exames físicos. Um de audiometria, numa sala, e outro exame tradicional, com o estetoscópio e o respire-fundo.-isso.-agora-solte. Entre eles, uma grande fila e uma sala de espera.

A audiometria é um exame em que te colocam um fone de ouvido gigante e um botãozinho pra você apertar quando ouvir os apitos, que são de volumes irregulares, um ouvido de cada vez. Uns são muito altos, outros muito baixinhos.

O problema é que todo mundo acha muito difícil ouvir os apitos muito baixinhos. Inclusive as 20 mulheres que estavam na sala de espera entre a audiometria e o exame físico. Não sei por que, mas essas pessoas a-do-ram repetir as descobertas dos outros quando elas se tornam descobertas pessoais. Todas as que entravam na audiometria saiam e diziam “Nossa, vai ficando muuuuito baixinho, quase não dá pra ouvir.”. EXATAMENTE igual à mulher imediatamente anterior a ela. Vinte vezes seguidas.

Podiam ter notado alguma coisa diferente. Tipo que a porta é cheia de bolinhas e que você fica vesgo quando olha pra frente. Ou que a fonoaudióloga fica falando mal da profissão enquanto você está com o fone na cabine a prova de som. Ou ainda que o médico do estetoscópio tinha acabado de chegar e estava uma hora atrasado. Sei lá!

“Agora só falta o médico!”

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O que eu tô fazendo aqui, meu Deus?

Junho 16, 2008

Pois é. Eu também me perguntei a mesma coisa quando cheguei na entrevista para um emprego de atendente de telemarketing. Estagiária, ainda por cima. Mas tudo bem, quando a gente precisa de dinheiro qualquer coisa vale. O difícil era tentar mostrar aos selecionadores que eu deveria ser escolhida se nem eu queria, de verdade, ser escolhida.

Depois de (não muitos) testes, uma prova de gramática (?) e uma entrevista com o supervisor, todos os candidatos foram contratados. Acho que as provas eram só pra dizer que existe um critério para seleção caso alguém da justiça do trabalho fiscalize alguma coisa. Enfim, eu deveria estar lá no dia seguinte para o exame médico e para entregar meus documentos para a assinatura do contrato.

Até aí, ok, um emprego, exame médico. O que me fez vir até aqui e contar todas essas coisas num blog foram os acontecimentos seguintes. Descobri que existe um mundo paralelo que eu não conhecia, e que ele precisa ser descoberto e (por que não?) satirizado. Afinal, se até o Casseta e Planeta tira sarro de telemarketing, eu que estou lá dentro não vou perder a oportunidade de repetir certas pérolas para o mundo exterior.

E aqui estou eu. Alguma dúvida, senhor?